Maio. Não é empate técnico nem questão de gosto: maio é o único mês em que todas as variáveis relevantes jogam a favor ao mesmo tempo — cachoeiras ainda cheias das chuvas que acabaram de passar, água em temperatura suportável, estradas de terra secas, céu limpo para trilha e para astroturismo, chuveirinhos no pico da floração e, de quebra, baixa temporada. Se a sua data é flexível, feche maio e pare de pesquisar.
O contexto climático explica o resto. A Chapada recebe 2.224 mm de chuva por ano, concentrados de outubro a abril; julho é o mês mais seco, com 2 mm, e novembro o mais chuvoso, com 381 mm. A água das cachoeiras fica entre 16 e 20°C em agosto e setembro, o que é bem mais frio do que a foto sugere.
Janeiro, fevereiro e março: evite. É o auge da chuva, e o problema não é se molhar — é tromba d'água. O Vale da Lua fecha por segurança sem aviso prévio, trilhas com travessia de rio ficam impraticáveis e estrada de terra vira loteria. A única razão legítima para vir nesse período é fotografia de cachoeira em volume máximo, assumindo que você pode perder dias inteiros.
Abril: muito bom. É o mês de transição em que as chuvas afrouxam mas o volume das quedas continua alto, e o acesso já melhorou bastante. É a segunda melhor aposta do ano e costuma ter preço melhor que maio na Semana Santa fora do feriado.
Maio: o melhor mês, pelos motivos acima. Junho: excelente, praticamente empatado com maio no acesso e no céu, com a diferença de que as noites ficam frias de verdade no cerrado de altitude — leve casaco, principalmente se for acampar. Julho: o tempo é o melhor do ano, com 2 mm de chuva, e a lotação é a pior. Férias escolares somadas a feriado enchem São Jorge e as pousadas sobem preço. Se você só pode viajar em julho, reserve com dois meses de antecedência.
Agosto: a divisão começa a aparecer. Para trilha, é ótimo — seco, firme, temperatura boa para caminhar. Para banho, já está fraco: o volume das quedas caiu e a água está no fundo da faixa dos 16 a 20°C. Setembro é o pior mês do ano e quase nenhum guia avisa: à água mínima soma-se a fumaça das queimadas do cerrado, que degrada a visibilidade dos mirantes, deixa o céu leitoso e incomoda mesmo quem não tem problema respiratório, tudo isso com calor seco de fim de estiagem. Não venha em setembro.
Outubro é transição irregular: as primeiras chuvas chegam sem padrão, então você tanto pode pegar o alívio da poeira quanto o começo do caos. Novembro e dezembro voltam ao regime chuvoso pesado — novembro é o recorde de chuva do ano — e valem o mesmo veto de janeiro a março.
Agora a parte que muda a forma de decidir. A pergunta 'seca ou chuva?', que todo guia responde, está mal formulada. A resposta correta depende do que você veio fazer, e o certo é cruzar época com objetivo. Se o seu foco é banho de cachoeira, a janela é abril a julho: volume alto e água ainda não gelada. Se o foco é trilha longa e travessia, é junho a agosto: terreno firme, rio baixo, calor administrável — e é o único período em que a Travessia das Sete Quedas opera. Se o foco é foto de cachoeira em força máxima, é janeiro a março, assumindo o risco de fechamento e de perder dias.
E há um quarto objetivo que quase ninguém coloca no calendário: astroturismo. A Chapada está a 14 graus de latitude sul, em planalto e sem poluição luminosa relevante, o que torna a Via Láctea visível a olho nu. A janela boa vai de maio a agosto, quando o céu está seco e limpo. Cruze com a fase da lua, escolha uma noite de lua nova e vá ao Jardim de Maytrea — é grátis, é na beira da estrada e é a melhor coisa que você vai fazer sem gastar um centavo.